O samba-enredo como voz política, memória e resistência no carnaval brasileiro
Na semana do carnaval, o Portal Sol Maior apresenta em áudio a crônica “Entre o Batuque e a História”, do jornalista e compositor Cláudio Ribeiro. O texto propõe uma escuta atenta do samba-enredo como expressão viva da história brasileira, revelando seu papel como instrumento de memória, resistência e elaboração política das camadas populares.
A partir de mais de 50 anos de vivência no universo do carnaval — entre quadras, barracões, desfiles e transmissões em rádio e televisão —, Cláudio Ribeiro compartilha uma reflexão que nasce da experiência direta com as escolas de samba e com as comunidades que constroem o desfile muito antes da avenida.
Na crônica, o autor nos convida a olhar para além do brilho das fantasias e reconhecer o enredo como a espinha dorsal do carnaval. É ali que a história do Brasil, marcada por lutas, silenciamentos e enfrentamentos, encontra voz. O samba-enredo, lembra Cláudio, nunca foi apenas entretenimento: é narrativa popular, crônica cantada, aula pública e, muitas vezes, manifesto político.
O texto lança luz sobre um aspecto frequentemente esquecido da memória oficial: o papel das escolas de samba como espaços de resistência cultural durante a ditadura militar. Em contraste com a valorização quase exclusiva de determinados nomes da MPB, a contribuição dos sambistas e carnavalescos foi, por décadas, minimizada ou ignorada. Uma exclusão que revela as marcas do racismo estrutural e do preconceito de classe na construção da história cultural brasileira.
Ao recordar enredos das décadas de 1970 e 1980 que denunciaram a repressão, exaltaram heróis populares e clamaram por liberdade, Cláudio Ribeiro destaca que o desfile é apenas o momento final de um longo processo coletivo. Durante meses, comunidades inteiras debatiam ideias, símbolos e versos, transformando o samba-enredo em um espaço de formação política e afirmação identitária.
A crônica também recupera a criminalização histórica do samba e de seus protagonistas, lembrando que, até meados do século XX, sambistas eram enquadrados pelo Código de Vadiagem. Em um país que nunca resolveu plenamente suas heranças escravocratas, o samba — expressão da cultura negra — sempre enfrentou tentativas de silenciamento.
Com memórias da escola de samba Colorado, em Curitiba, Cláudio Ribeiro reforça que a escola de samba não é apenas folclore, mas pensamento, produção intelectual e ação política coletiva. O samba-enredo, afirma, é um grande enunciado político construído pelo povo.
Ao publicar a crônica em áudio, o Portal Brasil Cultura reafirma seu compromisso com a valorização da cultura popular e com a democratização da memória, respeitando a oralidade, o ritmo e a força simbólica do samba.
Neste carnaval, o batuque nos lembra: enquanto muitos tentaram calar, o samba insistiu em falar — e segue falando.
Entre o Batuque e a História
O samba-enredo como voz política, memória e resistência no carnaval brasileiro
Como alguns sabem, além de jornalista e escritor, sou compositor. E não apenas por ofício, mas por destino. Minha ligação com o carnaval e com as escolas de samba ultrapassa meio século — mais de 50 anos vividos entre quadras, barracões e avenidas, inclusive como compositor de sambas-enredo e apresentando os desfiles em rádio ou televisão. Por isso, ao entrarmos na semana do carnaval, nada me parece mais justo do que olhar para além do brilho das fantasias e falar daquilo que sustenta o desfile: o enredo, essa espinha dorsal onde a história do Brasil, com suas dores e lutas, insiste em desfilar.
O samba-enredo nunca foi apenas entretenimento. Ele é narrativa, crônica cantada, aula pública e, muitas vezes, manifesto político. Em tempos de repressão, isso custou caro. Entre idas e vindas da nossa história recente, carnavalescos, compositores e integrantes das escolas de samba foram vigiados, censurados, eu mesmo, e até presos pelas forças repressivas que atuaram durante a ditadura militar — e, não raro, continuaram atuando mesmo após a volta dos civis ao poder.
Quando se fala em resistência cultural à ditadura, o pensamento quase automático recai sobre nomes consagrados da MPB. Nada contra — eles foram fundamentais. Mas por que pouco se fala do papel das escolas de samba nos anos de chumbo? Por que essa ausência no discurso oficial da memória?
Talvez porque, em determinados temas do processo social, sempre existam setores que se colocam como guardiões exclusivos da narrativa. A resistência teria CEP, classe social e formato definido. Tudo o que escapa a esse enquadramento tende a ser silenciado.
Vivemos numa sociedade historicamente estruturada pelo racismo, e uma de suas faces mais perversas é o apagamento da palavra, da intelectualidade e da humanidade das populações negras e periféricas. Nesse contexto, a escola de samba sempre foi vista mais como folclore do que como pensamento. Um erro grave. Porque a escola de samba, por meio do samba-enredo, fala, provoca e elabora. O samba-enredo é, sim, um grande enunciado político.
Quando observamos enredos dos anos 1970 e 1980 fazendo críticas diretas ou simbólicas à ditadura, não podemos reduzi-los ao tempo do desfile — uma hora, uma hora e meia na avenida. O processo criativo desses enredos levou seis meses, às vezes um ano inteiro, sendo debatido dentro da comunidade. Cada verso, cada metáfora, cada grito de “liberdade” carregava um processo político muito mais amplo e profundo.
É preciso afirmar, sem rodeios, que o aparelho repressivo do Estado historicamente direcionou uma violência sistemática e agravada contra as camadas populares, a população negra e periférica e, de forma emblemática, contra aqueles ligados ao samba. A criminalização dessas expressões nunca foi casual, mas parte de um projeto de controle social e racial. Falo com a autoridade de quem viveu essa realidade na saudosa escola de samba Colorado, em Curitiba, onde atuei como dirigente e como autor de sambas-enredo. Lembrando que Curitiba é a capital do sul do país com a maior população negra. O samba é uma expressão de cultura negra em um país que nunca resolveu suas heranças escravocratas. Não por acaso, até meados do século XX, sambistas eram enquadrados pelo Código de Vadiagem, previsto no Artigo 59 da Lei das Contravenções Penais. Ser sambista já era, em si, um ato de resistência.
Por isso, quando uma escola de samba ousava denunciar a tortura, exaltar heróis populares ou gritar por liberdade em pleno regime autoritário, não se tratava de ingenuidade ou acaso. Era coragem coletiva. Era política feita em forma de arte. Era o povo escrevendo sua própria crônica da história — com tambor, poesia e memória.
Neste carnaval, que o batuque nos lembre: enquanto muitos tentaram calar, o samba insistiu em falar. E segue falando.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Compositor