Resgatado em Matinhos, animal monitorado por satélite já se aproxima da Península Valdez e simboliza a importância da cooperação internacional para a conservação de espécies migratórias
O litoral do Paraná tornou-se ponto de partida para uma jornada internacional de conservação marinha. Um filhote de elefante-marinho-do-sul (Mirounga leonina), encontrado debilitado na praia de Matinhos, foi resgatado e reabilitado pela equipe multidisciplinar do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (LEC-UFPR). Após 25 dias de cuidados intensivos, o animal foi devolvido ao oceano em 21 de janeiro, em área próxima ao Parque Nacional Marinho da Ilha de Currais.
A ação integra o Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), executado no estado pela UFPR. Durante o período no Centro de Reabilitação, Despetrolização e Análise da Saúde da Fauna Marinha (CReD-UFPR), o filhote recebeu atendimento veterinário especializado até recuperar as condições ideais para retornar ao ambiente natural.
Antes da soltura, o animal passou por coleta de amostras biológicas, recebeu microchip de identificação e, de forma inédita no Paraná, teve instalado um transmissor satelital. O equipamento foi colocado pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), responsável técnica pelo PMP-BS na Área SC/PR.
Leve e seguro, o transmissor foi projetado para se desprender naturalmente ao longo do tempo, sem causar prejuízos ao animal. Desde então, os dados recebidos revelam que o filhote já percorreu o sul do Brasil, passou pelo Uruguai e agora está na Argentina, a menos de 800 quilômetros da Península Valdés — uma das principais áreas de ocorrência e reprodução da espécie.
Segundo o biólogo André S. Barreto, coordenador geral do PMP-BS Área SC/PR, o monitoramento em tempo real permite compreender melhor o comportamento da espécie em mar aberto. “Essa possibilidade de acompanhar tanto o deslocamento quanto o comportamento no oceano nos fornece dados sobre como o animal utiliza o ambiente. A análise das informações de mergulho e da temperatura da água ajuda a entender como esses animais escolhem seus destinos”, explica.
A trajetória reforça um aspecto central da conservação marinha: espécies migratórias dependem de ecossistemas saudáveis e de políticas articuladas ao longo de milhares de quilômetros. O tema estará em destaque na próxima Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), tratado internacional que promove a cooperação entre países para proteger espécies terrestres, marinhas e aéreas. O Brasil será sede da COP da CMS em 2026, em Campo Grande (MS).
“O filhote saiu do Paraná e agora se aproxima de sua área natural de ocorrência na Argentina. A CMS fortalece exatamente esse tipo de articulação internacional, essencial para garantir ambientes protegidos ao longo de toda a jornada. A conservação precisa de ação local, mas deve ser pensada em escala global”, destaca Camila.
Além de representar um caso bem-sucedido de reabilitação, a história evidencia o papel da ciência, do monitoramento ambiental sistemático e da cooperação institucional na proteção da biodiversidade em um cenário de mudanças ambientais globais.
“Cada etapa reforça a importância do monitoramento contínuo e das ações colaborativas. Seguimos acompanhando os próximos capítulos dessa jornada, que começou no Paraná e segue rumo às áreas mais ao sul do Atlântico, utilizadas com frequência pela espécie”, conclui Camila.
Sobre o PMP-BS
O Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos é uma exigência do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama, para as atividades da Petrobras de produção e escoamento de petróleo e gás natural na Bacia de Santos. No Paraná, Trecho 6, a execução é realizada pela equipe do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná.