Comunidade escolar do litoral se divide em consulta pública; enquanto quatro colégios aprovam o modelo cívico-militar, dois rejeitam após forte defesa de argumentos pedagógicos contrários.
As consultas públicas realizadas entre os dias 17 e 19 de novembro em seis colégios estaduais do Litoral do Paraná revelaram um cenário de forte divisão sobre o futuro das escolas da região. A votação, organizada pela Secretaria de Estado da Educação (Seed-PR), definiu quais instituições poderão adotar o modelo cívico-militar a partir de 2026.
O resultado: duas escolas rejeitaram a proposta, enquanto quatro aprovaram a mudança, cada qual com percentuais expressivos em suas comunidades.
Resultados no Litoral
No litoral, a consulta envolveu pais, responsáveis, servidores, professores e estudantes maiores de 18 anos. A apuração consolidada revelou que:
Rejeitaram o modelo cívico-militar
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Colégio Estadual Rocha Pombo (Antonina) – aprovação de 45%, insuficiente para a mudança.
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Escola Estadual Aníbal Khury (Guaratuba) – aprovação de apenas 36%.
Aprovaram o modelo
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Colégio Estadual José Bonifácio (Paranaguá) – 79% favoráveis.
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Colégio Estadual Maria Helena Luciano (Pontal do Paraná) – 87%.
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Colégio Vidal Vanhoni (Paranaguá) – 56%.
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Colégio Zilah dos Santos Batista (Paranaguá) – 51%.
Segundo o Núcleo Regional de Educação de Paranaguá, a participação da comunidade foi considerada “expressiva e qualificada”, com debates que permearam desde questões disciplinares até expectativas de melhoria do clima escolar.
O que é o modelo cívico-militar
O modelo prevê a presença de militares da reserva no cotidiano escolar, atuando no apoio administrativo, na organização da disciplina, no acompanhamento de entrada e saída dos alunos e em rotinas internas. A gestão pedagógica permanece sob responsabilidade dos diretores e professores.
O Paraná possui hoje uma das redes com maior número de escolas desse tipo no Brasil, e o governo afirma que o modelo reforça segurança, disciplina e sensação de pertencimento nas unidades.
A visão pedagógica crítica: por que parte dos educadores é contra
Embora o modelo tenha conquistado adeptos, uma parcela significativa da comunidade pedagógica mantém posição crítica, e essa perspectiva ajudou a influenciar o voto em escolas que rejeitaram a implantação.
Educadores e especialistas apresentam diversos argumentos contrários ao modelo. Entre os mais citados:
1. Militarização desvia o foco da educação integral
Para pedagogos, a formação escolar deve priorizar o desenvolvimento cognitivo, social, emocional e cultural do estudante. A lógica militar, baseada em hierarquia e disciplina rígida, contrasta com práticas pedagógicas modernas que valorizam autonomia, criatividade, participação e pensamento crítico.
2. O modelo não resolve problemas estruturais
Profissionais afirmam que os principais desafios educacionais — falta de infraestrutura adequada, carência de professores, baixos salários e defasagem de aprendizagem — não são solucionados com presença militar.
A crítica central é: implementa-se disciplina, mas não investimento pedagógico.
3. Risco de cerceamento da expressão estudantil
Em escolas onde a voz dos alunos é parte fundamental do processo formativo, a presença militar pode ser vista como um fator de intimidação, reduzindo espaços de diálogo, organização estudantil e participação democrática no cotidiano escolar.
4. Falta de formação pedagógica dos militares
Embora a atuação deles seja administrativa, pedagogos defendem que qualquer profissional atuando diariamente em ambiente educativo deve ter formação específica sobre desenvolvimento humano, adolescência, psicologia educacional e políticas escolares.
5. Escolas precisam de políticas de convivência, não de controle
Pesquisas na área de educação apontam que comportamentos problemáticos são melhor tratados com mediação de conflitos, acompanhamento psicossocial e práticas restaurativas — ações que fazem parte do campo pedagógico, não militar.
6. Possível estigmatização dos estudantes
Segundo críticos, o modelo pode reforçar punições e rotulações, principalmente entre alunos em situação de vulnerabilidade, aprofundando desigualdades em vez de reduzi-las.
Um debate que deve continuar
A votação de 19 de novembro deixou claro que a comunidade escolar do litoral está dividida — e que o debate sobre o papel do modelo cívico-militar na educação pública está longe de terminar.
Enquanto quatro escolas esperam melhorias no clima escolar e na disciplina com a chegada do modelo, duas deixaram claro que preferem apostar em alternativas pedagógicas internas para aprimorar a convivência e o desempenho dos estudantes.
Especialistas afirmam que a implementação, nas escolas onde foi aprovada, deve ser acompanhada de perto, com avaliação contínua de indicadores como aprendizagem, frequência, clima escolar e participação estudantil.
A partir de 2026, o litoral do Paraná se tornará um laboratório dessa convivência entre modelos distintos — e seus resultados, provavelmente, influenciarão o debate estadual e nacional sobre o futuro da educação pública.