Entre a Bíblia, a política e o contracheque do aposentado, a hora é de perguntar — e ouvir respostas
As coisas andam quentes pros lados da direita evangélica e da chamada bancada da Bíblia. E não é calor de avivamento, desses que prometem céu na terra. Coisas da célula religiosa. É outro tipo de febre: a da suspeita, a da cobrança pública, a do constrangimento que nasce quando o discurso sagrado cruza, sem pedir licença, o caminho torto do dinheiro.
Quem sabe assim — só quem sabe — muita gente comece a fazer o que sempre foi desencorajado nos templos mais barulhentos: questionar. Questionar instituições, lideranças, alianças políticas e, sobretudo, a ideia de que fé é salvo-conduto para tudo.
A faísca veio de dentro. A senadora Damares Alves, que nasceu no Paraná em Paranaguá, figura central desse campo religioso-político, resolveu divulgar uma lista de igrejas e pastores citados em requerimentos da CPI do INSS. O gesto não foi gratuito. Veio depois de um vídeo inflamado do pastor Silas Malafaia cobrando explicações sobre declarações em que Damares afirmava que grandes igrejas e líderes estariam ligados ao esquema de fraudes nos descontos aplicados a aposentados e pensionistas.
O detalhe que tira o episódio do terreno da fofoca e o coloca no campo da gravidade institucional é este: segundo a própria senadora, os pedidos de convocação, convites e quebras de sigilo se baseiam em documentos oficiais. Relatórios de Inteligência Financeira, informações da Receita Federal. Papel, carimbo e protocolo — não revelação divina.
Na lista aparecem igrejas com nomes que soam como promessa de conforto espiritual, mas que agora ecoam em corredores bem menos celestiais: Adoração Church, Assembleia de Deus Ministério do Renovo, Ministério Deus é Fiel (SeteChurch), Igreja Evangélica Campo de Anatote. Todas citadas em requerimentos da CPMI, algumas com pedidos de quebra de sigilo.
Do lado dos púlpitos personalizados, também há convocados: André Machado Valadão, César Belucci, Péricles Albino Gonçalves, Fabiano Campos Zettel, André Fernandes. No caso de Zettel, a CPI quer entender ligações familiares, financeiras e religiosas que orbitam o escândalo — aquela velha história brasileira em que parentesco, fé e negócios se dão as mãos e pedem segredo.
Nada disso é condenação. É investigação. Mas investigação, no Brasil, já é quase um pecado capital quando atinge gente que se diz ungida. A reação costuma vir rápida, em tom de perseguição religiosa, como se o Estado laico fosse um demônio de terno e gravata. E não é.
Talvez o mérito involuntário desse episódio seja outro: mostrar que fé não pode ser colete à prova de CPI. Que Bíblia não substitui prestação de contas. E que o aposentado roubado não encontra consolo em versículo, mas em justiça.
Se o púlpito esquentou, que seja para iluminar. E que os fiéis — esses sim, geralmente honestos e trabalhadores — aprendam que questionar não é perder a fé. Não é isso que estou dizendo. É, talvez, salvá-la.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Compositor