Escritório do candidato emitiu R$ 14 milhões em notas fiscais no período em que ele é senador. Relatório da PF indica acesso à conta em Portugal e elo financeiro com advogado que movimentou R$ 5 bi em apostas
A Polícia Federal (PF) solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de inquérito para investigar se o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atuou como sócio oculto da casa de apostas Best Bet. Segundo relatório da investigação, Flávio figurava como usuário master da conta bancária da offshore Alcazar Holdings no Banco Santander, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, que pertence ao advogado Willer Tomaz.
O perfil de acesso conferia a Flávio nível elevado de gestão e movimentação da conta, privilégio compartilhado apenas com Tomaz, o que, para os investigadores, “sustenta a hipótese de sua eventual participação econômica ou societária de fato na empresa”.
A estrutura na Ilha da Madeira e a licença na Loterj
A reconstituição dos documentos feita em Portugal e no Brasil expõe uma teia corporativa integrada. A Alcazar é “empresa irmã” da Cathedral Holdings, sediada no mesmo endereço no edifício Marina Club, em Funchal (Madeira), e administrada por Mateo Scudeler.
A Cathedral é a controladora da Rede Loto Ltda., operadora da Best Bet, a primeira empresa a obter licença de operação junto à Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), em maio de 2023. Registros contábeis confirmam o fluxo financeiro constante entre as duas holdings.
A Best Bet foi constituída em fevereiro de 2023 e protocolou 132 páginas de documentação na Loterj no mesmo dia da publicação do edital (27 de abril). A autorização oficial saiu em 25 de maio do mesmo ano, assinada por Hazenclever Cançado, então presidente da autarquia indicado ao cargo por articulação de Flávio Bolsonaro.
Com a licença estadual, a Best Bet operou nacionalmente até janeiro de 2025, quando o STF restringiu a atuação de loterias estaduais aos seus territórios. A empresa encerrou as atividades em meados de 2025.
Apagamento de registros e mordomias com jato executivo
A investigação documentou movimentações para retirar o nome do parlamentar dos registros bancários. Em 22 de maio de 2025, uma funcionária de Willer Tomaz pediu ao Santander a desassociação de Flávio Bolsonaro do perfil master.
Apenas um dia após o pedido, em 23 de maio, Flávio e Tomaz embarcaram de Cascais para Nice em jato executivo fretado pela Cathedral Holdings. Canhotos apreendidos pela PF no computador do advogado mostram que a Cathedral financiou ao menos três trechos de voos privados para o senador e seus familiares na Europa ao longo de 2025.
No mesmo período, o escritório de advocacia de Flávio emitiu notas fiscais que somam cerca de R$ 14 milhões entre 2023 e 2026. Ao menos um dos pagamentos recebidos teve origem na mesma conta compartilhada do Santander.
Maior apostador do país e apuração sobre lavagem de dinheiro
Paralelamente, uma nota técnica de outubro de 2026 da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda identificou Willer Tomaz como o maior apostador individual do Brasil em 2025.
O advogado movimentou aproximadamente R$ 5 bilhões na plataforma Blaze em operações internas de ganhos, reapostas e perdas. Somente em depósitos e saques diretos, foram R$ 350 milhões, valor 60% superior ao segundo colocado no país.
A PF apura se as movimentações bilionárias configuram lavagem de dinheiro e sociedade oculta na Blaze. Em processos judiciais, Tomaz alega ser ludopata para reaver perdas, enquanto a Fazenda abriu processo administrativo contra a plataforma por falhas de controle. O advogado também é investigado em outra frente da PF sobre fraudes no INSS.
Contradições e a tramitação no STF
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam qualquer sociedade ou vínculo financeiro. O senador afirmou que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas” e alegou que o e-mail enviado ao banco em maio de 2025 prova que seu nome havia sido incluído indevidamente. Tomaz declarou que a relação é apenas de amizade e que o custeio de viagens foi pessoal.
As justificativas, porém, entram em choque com os documentos bancários e contábeis recuperados pela PF, além de divergirem da postura pública de Flávio contra o endividamento provocado por apostas.
O caso tramita no Supremo Tribunal Federal sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, que analisa o conjunto de evidências de participação de Flávio Bolsonaro de fato em estrutura de apostas offshore.
Duas caras
As contradições entre o discurso eleitoral de Flávio Bolsonaro e as descobertas da Polícia Federal expõem a hipocrisia do candidato a presidente. Enquanto condenava publicamente a epidemia de apostas e prometia proteger as famílias do endividamento, atuava nos bastidores do setor para lucrar e lavar dinheiro.