Um clube de tiro por dia! No ano passado, 457 novas entidades de tiro desportivo foram abertas no Brasil, um crescimento de 34% em relação ao ano anterior. É o equivalente a dizer que, a cada dia, mais de um novo estabelecimento passou a funcionar no país. Só nos primeiros três meses deste ano, outros 268 foram criados.
O Brasil tem 2.061 clubes de tiros, sendo que quase metade (1.006) foi aberta de janeiro de 2019 até maio de 2022, durante o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL). No período, quase um clube de tiro foi inaugurado por dia no país. Os dados são do Exército.
A expansão dos clubes tem acompanhado outros aumentos relacionados a ela, como o de armas em circulação no país. Logo no primeiro ano do atual governo, o país bateu um recorde de inaugurações de clubes de tiro, com a abertura de 232 entidades. A marca, contudo, já foi superada duas vezes: foram 291 clubes fundados em 2020 e mais 348 no ano passado.
Os clubes, que em geral eram concentrados em grandes centros urbanos, têm sido inseridos também em cidades do interior do Brasil.

Pontal do Paraná, por exemplo, cidade turística, tem sua população de 26 636 habitantes, onde a economia é baseada nas atividades relacionadas ao turismo, que emprega a maioria da população fixa e atrai milhares pessoas de todos os cantos do país, durante a temporada de verão, tem ao que parece 2 clubes de tiro e nenhum clube de leitura.
Perguntado se as armas de uso restrito podem ser usadas pelos CACs em caso de suposta legítima defesa, o Exército Brasileiro respondeu à reportagem que não tem competência para esclarecer tal assunto.
Porém, o artigo 5º do decreto presidencial 9846/2019 prevê, em seu parágrafo 3º, que os CACs “poderão portar uma arma de fogo de porte municiada, alimentada e carregada”, ou seja, pronta para o uso, no trajeto entre a residência ou local de guarda local de guarda autorizado e o clube de caça ou tiro, por meio da apresentação do CR e da Guia de Tráfego, expedidos pelo Comando do Exército.
Em menos de dez dias, foram registrados dois ataques a tiros dentro de escolas no Brasil. Ambos os crimes foram cometidos com armas obtidas, a princípio, legalmente — uma delas pertencia a um CAC (colecionador, atirador desportivo ou caçador) e a outra era de um policial militar.
O primeiro perigo é o aumento das armas em circulação. O segundo é a falta de fiscalização e controle por parte do Exército e o terceiro é o incentivo e a banalização ao armamento por parte do poder público. Há um discurso de que ter uma arma e guardá-la em casa não oferece risco.
Por outro lado, há um dado alarmante: Trinta por cento dos brasileiros nunca compraram um livro. Outra constatação: em Pontal do Paraná não existe uma livraria.
Mas de onde vem toda essa dificuldade de afeição à leitura? A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) preconizam que só há leitura onde ela é um hábito nacional e esse hábito vem de casa e programas especiais de governos, além de haver o estímulo à formação de novos leitores. Dá para ver aí o porquê de toda a dificuldade não só em Pontal assim como no Brasil.

Você é a favor de clubes de leitura ou clubes de tiros?
Veja o que pensa o candidato Lula:
“Se preparem, porque esses clubes de tiros que foram criados vão fechar, vamos querer clubes de leitura.” A frase foi dita pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à presidência pelo Partido dos Trabalhadores (PT), em evento, e aborda possíveis mudanças em seu governo, caso seja novamente eleito. “Vamos querer bibliotecas espalhadas por esse país afora. Em vez de tiro, vai ter um livro”, seguiu. “Em vez de tiro, as pessoas vão ter acesso à cultura.”