Microplásticos: A Ameaça Invisível que Devasta o Litoral do Paraná

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Pesquisa pioneira revela contaminação alarmante por microplásticos em águas, sedimentos e fauna marinha

A poluição por microplásticos está se tornando um dos maiores desafios ambientais do século XXI, afetando ecossistemas costeiros ao redor do mundo. No litoral paranaense, a situação não é diferente. Um estudo realizado pelo Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), da Associação MarBrasil, confirmou a presença alarmante desses poluentes em águas, sedimentos e em diversas espécies marinhas, incluindo peixes e aves como a coruja-buraqueira.

Pesquisas revelam contaminação generalizada

A pesquisa pioneira no país está sendo conduzida na Grande Reserva Mata Atlântica, abrangendo o Complexo Estuarino de Paranaguá, a Baía de Antonina, a Baía das Laranjeiras, a Baía de Guaraqueçaba, o Canal da Galheta e a Baía de Guaratuba. Com apoio do Programa Petrobras Socioambiental, o projeto busca mapear a extensão da contaminação por microplásticos em baías, praias e rios que deságuam no mar, além de analisar a presença desses poluentes em espécies de interesse comercial e aves que habitam a região.

Segundo Fernanda Possatto, coordenadora do componente de lixo no mar do Rebimar, “O objetivo é capturar um grande panorama sobre a contaminação por microplásticos, identificando os locais mais afetados e as espécies mais vulneráveis.”

“O microplástico não respeita fronteiras”

O estudo revelou que a contaminação por microplásticos ocorre tanto em áreas urbanizadas, como Paranaguá, quanto em unidades de conservação mais isoladas. “Os microplásticos são transportados por marés e correntes, espalhando-se indiscriminadamente”, explica Allan Paul Krelling, oceanógrafo e professor do Instituto Federal do Paraná (IFPR). Resíduos plásticos se acumulam na superfície da água, formando espumas e plumas visíveis a olho nu, onde pequenos organismos se alimentam e, consequentemente, ingerem essas partículas nocivas.

“Isso cria um efeito cascata”, alerta Possatto. “Os microplásticos são ingeridos por organismos menores, que servem de alimento para peixes, aves e mamíferos marinhos, impactando toda a cadeia alimentar.”

Aves como bioindicadores da poluição por microplásticos

Diversas aves marinhas estão sendo afetadas pela contaminação. Dados do Projeto de Monitoramento de Praias (PMP) mostram que 20% das fragatas (Fregata magnificens), 13,3% dos atobás (Sula leucogaster) e 6,7% das gaivotas (Larus dominicanus) analisadas apresentaram resíduos plásticos no trato gastrointestinal.

Em 2024, o estudo foi ampliado para incluir a coruja-buraqueira (Athene cunicularia), uma espécie terrestre que frequenta áreas costeiras em busca de alimento. “Infelizmente, já encontramos microplásticos nessas aves, indicando que a poluição está se espalhando por diferentes habitats”, reforça Possatto.

A coleta de egagrópilas (pelotas regurgitadas contendo restos não digeríveis das presas) permitiu analisar a presença de microplásticos sem impactar diretamente os animais. Juliana Rechetelo, ornitóloga do projeto, explica que essas pelotas são processadas quimicamente para isolar os microplásticos e quantificar a contaminação.

Peixes comerciais contaminados

O estudo também investigou a presença de microplásticos em peixes vendidos em mercados e peixarias locais. Os resultados preliminares confirmam a contaminação em diversas espécies consumidas pela população. “Isso significa que o microplástico já está na nossa mesa”, alerta Possatto.

O futuro da pesquisa e a formação de novos cientistas

O Rebimar também se destaca por envolver jovens pesquisadores. Estudantes do Instituto Federal do Paraná (IFPR) participam ativamente das pesquisas, aprendendo sobre os impactos ambientais e contribuindo para o avanço da ciência.

“Essa dinâmica é literalmente a minha praia”, diz Thayane Paula Leone de Souza, aluna do curso de Tecnologia em Gestão Ambiental. “Com muita luta e persistência, esperamos um dia trazer soluções reais para esse problema.”

João Eduardo Nascimento Américo, estudante do Ensino Médio Técnico em Meio Ambiente, compartilha do mesmo entusiasmo. “Monitorávamos apenas a coruja-buraqueira, mas agora incluímos mais três espécies. Estamos dando um passo importante para entender a contaminação por microplásticos no litoral do Paraná.”

Um alerta para a necessidade de ação imediata

Os resultados da pesquisa do Rebimar evidenciam a urgência de medidas efetivas para reduzir a poluição por plásticos nos oceanos. Regulamentações mais rígidas, conscientização da população e soluções inovadoras são essenciais para frear essa crise ambiental.

O Programa Rebimar, parte da Associação MarBrasil, segue com seu compromisso de proteção dos ecossistemas marinhos. Apoiado pelo Governo Federal e por instituições acadêmicas, o projeto reforça a importância da ciência na construção de um futuro mais sustentável para os oceanos.

 

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