Levantamentos de segurança pública mostram que a maioria dos fuzis apreendidos com criminosos são dos calibres 5.56 e 7.62 — modelos liberados para compra por civis durante o governo Bolsonaro. Especialistas alertam que a política armamentista acabou alimentando o mercado ilegal e fortalecendo o crime organizado.
Nos últimos anos, operações policiais em todo o país têm revelado um dado preocupante: a maioria dos fuzis apreendidos em mãos de criminosos são dos calibres 5.56 e 7.62, os mesmos liberados para compra por Colecionadores, Atiradores e Caçadores (CACs) durante o governo de Jair Bolsonaro.
Segundo dados de secretarias de segurança e da Polícia Federal, esses armamentos — que antes eram de uso restrito das Forças Armadas — tornaram-se presença constante em comunidades dominadas por facções criminosas e milícias. Investigações apontam que parte desse arsenal chega ao crime por meio de desvios, furtos e revendas ilegais dentro do próprio sistema de controle de CACs.
Especialistas em segurança pública afirmam que a flexibilização do acesso às armas e munições promovida entre 2019 e 2022 teve consequências diretas no aumento do poder de fogo do crime organizado. O fuzil calibre 5.56, por exemplo, é considerado letal em combates urbanos, com alto poder de penetração e alcance. O 7.62, ainda mais potente, é capaz de perfurar blindagens leves e até estruturas de concreto.
“O que era para ser uma política de liberdade individual acabou servindo como uma espécie de ‘atacadão’ para o crime”, afirma o pesquisador Bruno Langeani, do Instituto Sou da Paz. “As organizações criminosas perceberam rapidamente que era mais fácil conseguir armas novas e registradas, com notas fiscais, por meio de laranjas cadastrados como CACs.”
A Polícia Federal e o Exército têm intensificado o rastreamento de armas desviadas. Em diversos casos, fuzis apreendidos em operações contra o tráfico foram rastreados até colecionadores registrados legalmente. Muitas dessas armas foram vendidas de forma irregular ou declaradas como “extraviadas” para ocultar o desvio.
Com a revogação de parte dos decretos de flexibilização pelo atual governo, o número de novas concessões de CACs caiu. No entanto, especialistas alertam que o estoque de armas legalizadas nos últimos anos ainda representa um risco. Estima-se que mais de 1 milhão de armamentos foram comprados por civis no período de vigência da política armamentista.
Enquanto o debate sobre o controle de armas segue acalorado, nas ruas, o resultado é visível: o crime organizado nunca teve tanto poder de fogo.