Carta Aberta à 4ª Conferência Municipal de Cultura de Pontal do Paraná

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Por Cláudio Ribeiro

Senhoras e senhores,
companheiros e companheiras da cultura,
artistas, educadores, pescadores, estudantes, trabalhadores, juventude, povos tradicionais e representantes da sociedade civil.

Recebam meu abraço fraterno e meu profundo respeito.

Gostaria imensamente de estar presente nesta 4ª Conferência Municipal de Cultura de Pontal do Paraná, participando pessoalmente deste momento tão importante para o nosso município. Infelizmente, por questões de saúde e em razão de um tratamento médico que realizo atualmente em Curitiba, não me é possível estar fisicamente ao lado de vocês neste encontro.

Ainda assim, faço questão de deixar registrada minha voz, minha reflexão e, sobretudo, meu compromisso com a cultura de Pontal do Paraná.

Porque esta conferência não é apenas um evento institucional. Ela representa um espaço de escuta, construção coletiva e afirmação da identidade do nosso povo.

Hoje nos reunimos para discutir muito mais do que políticas culturais. Estamos discutindo pertencimento, memória, democracia e futuro.

Pontal do Paraná não começa em sua emancipação oficial de 1995. Muito antes dos documentos e limites administrativos, este território já pulsava vida, tradição, ancestralidade e resistência. Aqui já existiam comunidades caiçaras, povos originários, pescadores artesanais e famílias que aprenderam a construir sua existência em profundo diálogo com o mar, os rios, os manguezais e a Mata Atlântica.

Nossa cultura nasce exatamente desse encontro entre natureza, território e povo.

Ela nasce no saber do pescador que lê o tempo pelas marés.
Nasce no fandango, na culinária tradicional, na oralidade, nas festas populares e nas histórias transmitidas entre gerações.
Mas nasce também na universidade, na ciência, na juventude criativa, no teatro, na música, na literatura, no audiovisual e nas novas linguagens digitais que hoje ampliam nossas formas de expressão.

Por isso, pensar cultura em Pontal do Paraná exige responsabilidade histórica.

Cultura não pode ser tratada como enfeite institucional, calendário de temporada ou gasto secundário.

Cultura é direito.
Cultura é cidadania.
Cultura é educação.
Cultura é desenvolvimento humano.
Cultura é geração de renda.
Cultura é preservação da memória coletiva.
E, acima de tudo, cultura é proteção da democracia.

Precisamos construir políticas culturais permanentes, democráticas e participativas, que sobrevivam às mudanças de governo e estejam conectadas às necessidades reais da população.

Uma política cultural séria para Pontal do Paraná deve reconhecer e valorizar a força da identidade caiçara e litorânea. Isso significa proteger saberes tradicionais, preservar nossa memória histórica, valorizar mestres da cultura popular, defender nossos sambaquis e garantir que as futuras gerações conheçam suas raízes.

Mas também precisamos olhar para o presente e para o futuro.

Temos uma juventude potente, criativa e conectada, produzindo música, arte urbana, audiovisual, cultura digital e novas formas de comunicação. Essa juventude precisa de oportunidades, espaços culturais, acesso à tecnologia, formação artística e incentivo contínuo.

Não podemos aceitar que a cultura exista apenas durante a temporada de verão ou concentrada em poucos espaços.

A cultura precisa acontecer o ano inteiro.
Em todos os balneários.
Em todas as comunidades.
Em todas as escolas e territórios da cidade.

Da Praia de Leste ao Pontal do Sul.
De Shangri-lá ao Guaraguaçu.
Das comunidades pesqueiras aos espaços universitários.

É fundamental descentralizar as ações culturais e democratizar o acesso à produção artística e ao conhecimento.

Também precisamos compreender o papel estratégico da economia criativa para o desenvolvimento local.

A cultura movimenta turismo sustentável, gera emprego, fortalece pequenos empreendedores, valoriza o artesanato, impulsiona festivais, fomenta a gastronomia e fortalece a identidade do município.

Mas isso só acontece com planejamento, investimento público e compromisso político.

Por isso, defendemos o fortalecimento:

  • do Conselho Municipal de Cultura;
  • do Fundo Municipal de Cultura;
  • de editais públicos transparentes e acessíveis;
  • de um Plano Municipal de Cultura com metas de longo prazo;
  • de um cadastro municipal de artistas e agentes culturais;
  • e da participação efetiva da sociedade civil nas decisões culturais.

Também é impossível pensar cultura em Pontal do Paraná sem falar sobre meio ambiente.

Nosso território abriga uma das maiores riquezas naturais do litoral brasileiro. A política cultural precisa dialogar com a preservação ambiental, com a educação ecológica e com a valorização do oceano, dos manguezais e da biodiversidade local.

Aqui, cultura e natureza não são temas separados. São partes inseparáveis da mesma identidade.

Da mesma forma, as universidades e centros de pesquisa possuem papel estratégico nesse processo. Precisamos aproximar ciência e cultura, saber acadêmico e conhecimento popular, pesquisa e comunidade.

Uma cidade que valoriza sua cultura valoriza seu povo.

Uma cidade sem memória perde sua identidade.

E uma cidade que não investe em cultura enfraquece sua própria democracia.

Por isso, espero que esta 4ª Conferência Municipal de Cultura seja mais do que uma formalidade institucional. Que ela seja um marco histórico na construção coletiva de um projeto cultural democrático, inclusivo, sustentável e verdadeiramente popular para Pontal do Paraná.

Um projeto construído com participação social.
Com diversidade.
Com respeito às diferenças.
Com memória.
Com inclusão.
E com compromisso verdadeiro com o futuro.

Mesmo distante fisicamente neste momento, sigo acreditando profundamente na força transformadora da cultura e no potencial humano do nosso município.

Que esta conferência produza não apenas debates, mas compromissos concretos.

Porque defender cultura é defender dignidade.

E porque o futuro de Pontal do Paraná também será escrito através da arte, da memória e da voz do seu povo.

Muito obrigado.

 

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Escritor – Compositor

Ex secretário de ESTADO

Formação em Direito

Pós-graduação em História do Brasil

Ciências Politicas

 

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