O trabalhador que vota contra o próprio destino

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Entre a ilusão de pertencimento e a realidade de quem vive do próprio trabalho

 

Estou eu aqui, analisando as pesquisas eleitorais e tentando compreender uma das maiores contradições da política brasileira: trabalhadores, gente que acorda cedo, enfrenta transporte precário, paga impostos, luta para fechar as contas no fim do mês e, muitas vezes, vive sem a segurança de saber como será o amanhã, apoiando políticos e projetos que nem sempre representam seus próprios interesses. Sérgio Moro e Flávio Bolsonaro não representam os interesses da classe trabalhadora.

As pesquisas colocam essas duas figuras disputando exatamente os votos do povo que mais trabalha e menos recebe das riquezas produzidas.

E confesso: isso me entristece.

Não porque eu ache que todo trabalhador deva pensar como eu. A democracia existe justamente para garantir o direito à divergência. O que me incomoda é perceber como, muitas vezes, o trabalhador é convencido a defender quem jamais enfrentará os mesmos problemas que ele enfrenta.

É nesse momento que me vem à memória uma frase atribuída ao uruguaio Pepe Mujica: “O pior inimigo de um pobre é outro pobre que se acha rico e que defende aqueles que os tornam pobres.”

É uma frase dura. Incômoda. Mas talvez seja justamente por isso que merece ser pensada.

Vivemos em uma sociedade onde milhões de pessoas trabalham para sobreviver enquanto uma minoria concentra riqueza, influência e poder. Ainda assim, não é raro encontrar quem esteja mais preocupado em defender o patrimônio dos milionários do que em discutir o salário de quem vive de seu próprio trabalho. Há quem se revolte mais com um programa social destinado a combater a fome do que com a concentração absurda de renda. Há quem enxergue o trabalhador organizado como ameaça, mas aceite com naturalidade privilégios históricos concedidos aos mais poderosos.

Essa inversão de prioridades não aconteceu por acaso.

A política também é uma batalha pela consciência. Quem controla a narrativa, muitas vezes, consegue convencer o trabalhador de que seu adversário é outro trabalhador. O funcionário público vira inimigo do trabalhador da iniciativa privada. O pobre que recebe um benefício social passa a ser tratado como culpado pela crise. O sindicalista é apresentado como inimigo do empreendedor. O professor é responsabilizado pelos problemas da educação. E, enquanto os pobres brigam entre si, os verdadeiros donos do poder continuam assistindo de camarote.

É uma velha estratégia: dividir para governar.

O trabalhador que se imagina pertencente à elite porque um dia espera enriquecer talvez não perceba que, enquanto esse dia não chega — e para a maioria nunca chegará — ele continua dependendo de salário, aposentadoria, escola pública, saúde pública, transporte e políticas que protejam seus direitos.

Não há nada de errado em querer prosperar. O sonho de melhorar de vida é legítimo e necessário. O problema é quando o desejo de subir na vida nos faz esquecer de onde viemos e, pior, nos leva a defender políticas que dificultam a vida daqueles que continuam na mesma luta que nós.

É preciso dizer com todas as letras: trabalhador não precisa de político que lhe faça favores. Precisa de direitos. Precisa de salário digno. Precisa de emprego decente. Precisa de educação de qualidade, saúde pública, moradia, segurança e oportunidades reais.

E esses direitos não caem do céu.

Foram conquistados com luta.

Por isso, quando olho para uma pesquisa eleitoral, não vejo apenas percentuais. Vejo uma disputa muito maior: a disputa pela consciência de um povo.

Vejo trabalhadores sendo bombardeados diariamente por discursos que apelam ao medo, ao ressentimento e à desinformação. Vejo gente humilde defendendo privilégios que nunca terá. Vejo pessoas discutindo furiosamente sobre políticos enquanto pouco discutem sobre os interesses econômicos que estão por trás das decisões políticas.

E talvez seja justamente aí que esteja o maior desafio da democracia: fazer com que cada cidadão compreenda que votar não é torcer por um time de futebol.

Político não é ídolo.

Político é servidor público.

E todo servidor público precisa ser cobrado.

A democracia exige memória. Exige consciência. Exige que cada um pergunte: quem ganha quando determinada política é aprovada? Quem perde? Quem está pagando a conta? Quem está ficando mais rico? Quem está ficando mais pobre?

Essas perguntas são mais importantes do que qualquer slogan.

A frase de Mujica, verdadeira ou não em sua autoria exata, permanece poderosa porque toca em uma ferida profunda: a dificuldade que temos, como sociedade, de reconhecer interesses comuns.

Enquanto o trabalhador acreditar que sua luta é contra outro trabalhador, alguém estará lucrando com essa divisão.

Enquanto o pobre acreditar que seu maior problema é o pobre que recebe um benefício, alguém continuará acumulando fortunas.

Enquanto o cidadão comum enxergar o vizinho como inimigo político, os verdadeiros privilégios continuarão protegidos.

Eu continuo olhando para as pesquisas eleitorais e pensando que o maior desafio do Brasil não é apenas escolher entre candidatos. É construir uma sociedade capaz de compreender seus próprios interesses.

Porque a política não deveria servir para convencer o trabalhador a lutar contra o próprio destino.

Deveria servir para que ele reconhecesse, no rosto do outro trabalhador, alguém que enfrenta a mesma batalha.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja “em quem você vai votar?”

Talvez seja:

“A quem interessa o seu voto?”

É dessa pergunta que começa uma democracia verdadeiramente consciente.

 

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Escritor – Compositor

 

 

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