A promessa de uma mulher na chapa desapareceu — e, no lugar dela, entrou Alfredo Gaspar, deputado que já foi alvo de uma notícia-crime na Polícia Federal por acusações gravíssimas.
Flávio Bolsonaro queria uma mulher para ocupar a vice-presidência. Disse isso publicamente e tentou construir uma chapa capaz de ampliar seu eleitorado e diminuir a resistência entre as mulheres.
O discurso, porém, ficou para trás.
Nesta quarta-feira (5), o candidato do PL anunciou o deputado Alfredo Gaspar como seu companheiro de chapa. A escolha encerra semanas de especulações e coloca no centro da disputa presidencial um nome que já esteve no foco de uma grave denúncia apresentada à Polícia Federal.
A notícia-crime, protocolada em março pelos parlamentares Lindbergh Farias e Soraya Thronicke, pedia investigação sob sigilo sobre acusações de estupro de vulnerável e fraude processual.
A CHAPA QUE PROMETIA UMA MULHER TERMINA COM DOIS HOMENS
A escolha de Gaspar representa uma mudança significativa na estratégia anunciada por Flávio.
Durante semanas, o discurso era de que uma mulher seria a opção preferencial para a vice. Nomes como Tereza Cristina e Daniella Marques chegaram a ser considerados, mas não conseguiram viabilizar a entrada de seus partidos na aliança nacional com Flávio.
O resultado foi uma chapa exclusivamente masculina — e com um vice que traz consigo uma controvérsia judicial de enorme potencial político.
A pergunta agora é inevitável: o que fez Flávio Bolsonaro abandonar a promessa de uma vice mulher para apostar justamente em Alfredo Gaspar?
DENÚNCIA LEVOU CASO À POLÍCIA FEDERAL
A notícia-crime apresentada em 27 de março descreveu acusações envolvendo uma adolescente que teria 13 anos à época dos fatos.
Segundo os autores da representação, documentos e registros de conversas teriam sido apresentados como elementos para justificar a abertura de uma investigação. A peça também relatou uma suposta gravidez decorrente dos fatos narrados.
A representação mencionou ainda uma possível tentativa de impedir que o caso chegasse às autoridades, incluindo alegações de negociações financeiras para manter o silêncio.
São acusações, e não fatos judicialmente comprovados.
GASPAR REJEITA AS ACUSAÇÕES
O deputado nega que tenha cometido qualquer crime.
À época, Gaspar afirmou que as acusações eram falsas e anunciou que tomaria medidas judiciais contra os responsáveis pela denúncia. Também apresentou um exame de DNA relacionado à paternidade e sustentou que a acusação teria confundido sua pessoa com a de seu primo.
A própria jovem citada nas acusações veio a público para negar que Gaspar seja seu pai e contestou a versão apresentada pelos denunciantes.
Ou seja: há acusações graves, mas também há negativas e elementos de defesa que precisam ser considerados.
O PROBLEMA POLÍTICO PARA FLÁVIO
A questão, portanto, vai muito além da escolha de um nome para completar uma chapa.
Flávio Bolsonaro construiu sua campanha prometendo renovação, segurança e combate à corrupção. Gaspar, por sua vez, ganhou projeção justamente por sua atuação em temas ligados à segurança pública e pela relatoria da CPMI do INSS.
Agora, a campanha terá de responder por que escolheu como vice um parlamentar que já foi alvo de uma notícia-crime envolvendo acusações de extrema gravidade.
A investigação — e não manchetes ou julgamentos políticos — deverá determinar o que efetivamente aconteceu.
Mas, eleitoralmente, o problema já está colocado.
DA PROMESSA À CONTROVÉRSIA
Flávio Bolsonaro prometeu uma mulher.
Entregou Alfredo Gaspar.
E, junto com ele, colocou na própria chapa uma controvérsia que poderá acompanhar a candidatura durante toda a campanha.
A promessa de ampliar a chapa para além do núcleo tradicional do bolsonarismo terminou em uma escolha interna do PL.
Agora, resta saber se a aposta em Gaspar será um movimento de força — ou se a controvérsia em torno do deputado se transformará em um dos maiores passivos políticos da candidatura de Flávio Bolsonaro.
A eleição mal começou. A primeira crise da chapa, porém, já tem nome e sobrenome.