Senador abandona o primeiro confronto da corrida ao Palácio Iguaçu, acusa adversários de “jogo combinado” e transforma uma escolha de campanha em um teste de credibilidade diante do eleitor
Há momentos em uma eleição em que um candidato fala mesmo quando não abre a boca.
Na noite de domingo, 9 de agosto, Sergio Moro falou justamente por sua ausência.
Enquanto Requião Filho, Sandro Alex e Rafael Greca ocupavam o estúdio da Band Paraná para enfrentar perguntas, críticas e o contraditório, a cadeira reservada ao senador permaneceu vazia.
E uma cadeira vazia, em um debate eleitoral, não é apenas uma cadeira vazia.
É uma mensagem.
Moro decidiu não participar do primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Paraná poucas horas antes da transmissão. O encontro havia sido planejado pela Band com regras claras, incluindo confrontos diretos, perguntas e respostas entre os candidatos.
O senador justificou a decisão alegando que existiria um “jogo combinado” entre PT e PSD para atacá-lo. Disse ainda que os adversários estariam unidos contra quem, segundo sua própria avaliação, lidera a disputa.
A explicação pode ser politicamente conveniente.
Mas não responde à pergunta central: por que um candidato que se apresenta como líder da corrida eleitoral não estaria disposto a enfrentar seus adversários justamente quando tem a oportunidade de defender suas ideias diante do eleitor?
Se é líder, por que fugir do confronto?
A expressão usada por Requião Filho — “fujão” — é obviamente uma provocação eleitoral. Não é prova de medo, muito menos diagnóstico sobre a capacidade de Moro.
Mas é uma provocação que encontrou terreno fértil.
Porque o eleitor não vota em pesquisa.
Vota em candidato.
E candidato a governador não terá o privilégio de escolher as perguntas que receberá, os adversários que enfrentará ou os problemas que terá de resolver.
O Paraná não funciona como uma rede social em que comentários podem ser filtrados, críticas podem ser bloqueadas e o discurso pode ser cuidadosamente editado antes de chegar ao público.
Governar é enfrentar pressão.
É responder a deputado.
É negociar com prefeito.
É enfrentar crise.
É explicar decisões.
É responder à imprensa.
É encarar adversários.
E, sobretudo, é prestar contas à população.
Por isso, quando um candidato falta justamente ao espaço destinado ao confronto, é inevitável que sua decisão seja submetida ao julgamento político.
Não é preciso afirmar que Moro “teve medo”.
Basta constatar o óbvio: ele não esteve lá.
A estratégia pode ter sido racional. A pergunta continua sendo incômoda.
É perfeitamente possível compreender a lógica eleitoral por trás da ausência.
Moro aparecia na liderança da pesquisa Quaest divulgada em 27 de julho, com 39% das intenções de voto, à frente de Requião Filho, Rafael Greca e Sandro Alex.
Para quem está na frente, um debate pode representar mais risco do que oportunidade.
Uma resposta mal formulada pode virar manchete.
Uma gafe pode dominar as redes sociais.
Uma provocação pode tirar o candidato do eixo.
Um adversário pode encontrar uma pergunta capaz de desmontar uma narrativa construída durante meses.
Politicamente, portanto, evitar o confronto pode ser uma estratégia.
Mas estratégia eleitoral não é sinônimo de compromisso republicano.
E é aí que mora o problema.
O candidato pode escolher não ir. O eleitor pode escolher como interpretar.
Moro tem o direito de considerar que determinado debate não seria produtivo para sua campanha.
O eleitor, por sua vez, tem o mesmo direito de considerar essa ausência um sinal negativo.
Essa é a essência da democracia.
Não cabe ao candidato controlar a interpretação de sua própria decisão.
Se ele não comparece, os adversários falarão.
Se não responde, outros responderão por ele.
Se não ocupa o espaço, alguém ocupará.
Foi exatamente o que aconteceu.
Requião Filho aproveitou a ausência para atacar. Sandro Alex também encontrou espaço para explorar politicamente a decisão. E Moro, que pretendia evitar um ambiente que classificou como uma “rinha de galo”, acabou fornecendo aos adversários justamente a munição que tentava impedir.
É a velha ironia da política:
às vezes, tentar escapar do ataque é a maneira mais eficiente de entregar o ataque ao adversário.
“Jogo combinado” precisa ser demonstrado, não apenas denunciado
A acusação de Moro de que haveria um “jogo combinado” entre PT e PSD é grave politicamente.
Mas acusações dessa natureza precisam de evidências.
Se houve combinação, é necessário demonstrá-la.
Se houve coordenação entre adversários, é preciso apresentar fatos.
Do contrário, o eleitor fica diante de uma alegação política sem comprovação pública.
E há uma diferença fundamental entre dizer “acredito que meus adversários estão combinados contra mim” e provar que existe efetivamente uma articulação para isso.
A política brasileira já produziu exemplos suficientes de acusações lançadas ao vento, posteriormente transformadas em verdade por repetição.
Não deveria ser assim.
O eleitor paranaense merece mais.
Merece fatos.
Merece documentos.
Merece propostas.
Merece confronto.
A velha política do discurso controlado
Existe ainda uma questão maior.
A democracia contemporânea criou uma contradição curiosa: os candidatos querem falar diretamente com o eleitor, mas cada vez mais tentam fazer isso sem intermediários, sem perguntas inesperadas e sem adversários por perto.
As redes sociais permitem exatamente isso.
O político fala.
O eleitor recebe.
A campanha escolhe o enquadramento.
O vídeo é editado.
A pergunta inconveniente não existe.
O adversário não interrompe.
O contraditório desaparece.
O debate televisivo quebra essa lógica.
Ali, o candidato não controla completamente a conversa.
É justamente por isso que ele importa.
O debate é desconfortável por natureza.
E deveria ser.
O Paraná não precisa de candidatos protegidos por bolhas
Quem pretende governar um Estado precisa sair da bolha.
Precisa ouvir críticas.
Precisa responder perguntas incômodas.
Precisa explicar contradições.
Precisa demonstrar conhecimento sobre o território que pretende administrar.
O Paraná não é apenas Curitiba.
Não é apenas segurança pública.
Não é apenas infraestrutura.
Não é apenas agronegócio.
Não é apenas indústria.
Há um Estado inteiro para administrar, com diferenças econômicas, sociais e regionais profundas.
O governador não poderá apertar um botão para bloquear a oposição.
Não poderá restringir comentários quando uma decisão provocar revolta.
Não poderá abandonar uma reunião porque considera as perguntas agressivas.
No governo, o confronto é permanente.
A cadeira vazia virou personagem da eleição
O primeiro debate não decidiu a eleição.
Mas criou uma imagem.
De um lado, três candidatos diante das câmeras.
Do outro, uma cadeira vazia.
Moro pode tentar explicar que foi estratégia.
Pode dizer que não aceitou participar de uma disputa que considerava contaminada por ataques.
Pode insistir que os adversários estavam articulados.
Tudo isso faz parte do jogo eleitoral.
Mas existe algo que nenhum discurso consegue apagar:
quando o debate começou, Sergio Moro não estava lá.
E essa imagem pertence agora ao eleitor.
A campanha está apenas começando. A Band havia anunciado o encontro como a abertura da temporada de debates para o Governo do Paraná, justamente com a proposta de apresentar ideias, projetos e confrontar os candidatos.
A partir daqui, virão outros debates, entrevistas, sabatinas, comícios, programas eleitorais e encontros públicos.
Moro terá novas oportunidades para explicar sua estratégia.
E os adversários terão novas oportunidades para explorar sua ausência.
Não basta liderar. É preciso sustentar a liderança
Pesquisa não é mandato.
Liderança não é salvo-conduto.
Popularidade não substitui preparo.
E campanha eleitoral não pode ser transformada em um ambiente onde o candidato só aparece quando controla as condições do jogo.
Se Moro realmente acredita que está preparado para governar o Paraná, terá de demonstrar isso diante de perguntas difíceis, adversários preparados e eleitores desconfiados.
É assim que funciona uma democracia adulta.
Não é preciso fugir da crítica.
É preciso respondê-la.
Não é necessário impedir o ataque.
É necessário sobreviver a ele com argumentos.
Não se governa uma população concordando apenas com quem aplaude.
Governa-se enfrentando quem discorda.
Por isso, o episódio da Band merece ser tratado para além da provocação de Requião Filho.
A pergunta que fica não é simplesmente se Sergio Moro “teve medo”.
A pergunta é muito mais séria:
um candidato que pretende comandar o Paraná está disposto a enfrentar, sem filtros e sem escudos, o contraditório que inevitavelmente encontrará no Palácio Iguaçu?
A resposta não será dada por uma pesquisa.
Nem por uma postagem nas redes sociais.
Será dada pelos próximos debates.
E, finalmente, pelas urnas.