A estratégia da direita fracassa no julgamento que pretendia transformar em vitória

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O que deveria atingir Alexandre de Moraes acabou expondo divisões, levantando novas dúvidas e deixando no ar a possibilidade de investigações sobre outros ministros

O julgamento apresentado pela direita como histórico e sem precedentes, amplamente respaldado pela grande mídia, terminou longe do desfecho que seus articuladores esperavam. Desde o início, eu alertava para o erro de tratar Alexandre de Moraes como uma carta fora do baralho. Alguns jornais pareciam ignorar justamente o fator mais importante: a disposição do próprio ministro para reagir. O resultado mostrou que a estratégia montada não funcionou como previsto.

Na minha avaliação, Edson Fachin não demonstrou a firmeza necessária para conduzir uma sessão tão delicada. Também não conseguiu fazer prevalecer sua posição diante da questão de ordem apresentada por Flávio Dino, que contestou a possibilidade de Fachin assumir a relatoria depois do afastamento de André Mendonça. Tudo indica que a definição deverá ocorrer por sorteio.

A possibilidade de o julgamento só ser retomado depois das eleições passou a figurar entre as principais reclamações estampadas nas manchetes. E isso ajuda a dimensionar a distância entre a expectativa criada e o resultado efetivamente produzido.

Gilmar Mendes apresentou uma argumentação contundente e aprofundada, embora tenha demonstrado irritação em alguns momentos. Moraes, por sua vez, manteve a firmeza habitual, criticou Mendonça e afirmou que apresentará provas de uma suposta articulação contra ele. Zanin atuou com a serenidade e a segurança que caracterizam suas intervenções.

Mas quem, na minha leitura, dominou os momentos mais importantes do debate foi Flávio Dino. Com argumentos consistentes, ironia e firmeza, ele colocou uma questão central sobre a mesa: o presidente da Corte poderia simplesmente assumir a relatoria de um processo nas circunstâncias apresentadas? Foi essa intervenção que abriu uma das principais discussões da sessão.

Também não me parece que tenha prosperado a tentativa da direita de explorar uma eventual associação entre Moraes e Lula. O grupo bolsonarista teve participação pouco expressiva.

Kassio Nunes Marques anunciou no início que não participaria da sessão nem votaria e deixou o plenário. Uma das possíveis razões seria a preocupação em preservar sua posição à frente do TSE.

Fux permaneceu mais discreto. Ouviu Dino afirmar diretamente que seu nome aparecia nas mensagens de Vorcaro e reagiu com indignação. Na minha avaliação, porém, poderia ter respondido de forma mais consistente.

Mendonça tentou justificar suas decisões, mas não considero que tenha apresentado uma atuação convincente. Em alguns momentos, demonstrou hesitação e, quando procurou endurecer o tom, foi confrontado por Gilmar Mendes.

Depois da sessão, surgiram interpretações de que o resultado teria sido negativo para Lula, especialmente a partir de uma suposta proximidade entre o presidente e Moraes. Eu não compartilho dessa leitura.

Se o ministro que condenou Bolsonaro e os envolvidos na tentativa de golpe tivesse se tornado réu, o cenário poderia ter sido ainda mais complicado para Lula. A direita apostava em uma vitória. O que ocorreu, porém, ficou distante dessa expectativa.

Eu resumiria o episódio com uma imagem do futebol: quem entrou em campo esperando vencer acabou deixando escapar dois pontos.

E há algo que considero ainda mais relevante.

As declarações de Flávio Dino permitem que se considere a possibilidade de surgirem elementos capazes de levar a uma investigação sobre eventuais relações de André Mendonça e Luiz Fux com Vorcaro. No caso de Kassio, já existem referências a evidências nessa direção, e o ministro deixou a sessão.

Por isso, eu não considero prudente antecipar conclusões definitivas. Os próximos capítulos poderão trazer novos elementos e mudar a dimensão do que foi discutido até aqui.

Mas, diante do que está posto neste momento, mantenho minha avaliação: André Mendonça poderá se tornar alvo de uma investigação antes de Alexandre de Moraes.

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Escritor – Compositor

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