A cultura é a memória viva de um povo

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No Dia Nacional da Cultura, reflito sobre a importância de preservar nossas raízes, valorizar quem transforma a arte em expressão de vida e garantir que a cultura seja um direito de todos.

Há datas que chegam ao calendário trazendo motivos para comemorar. Outras nos convidam a interromper a pressa cotidiana, olhar ao redor e pensar sobre aquilo que estamos fazendo com nossa própria história. O 5 de novembro, Dia Nacional da Cultura, reúne essas duas dimensões. É um dia para celebrar a imensa riqueza cultural brasileira, mas, sobretudo, para refletir sobre o lugar que ela ocupa em nossas escolhas, nas prioridades do país e na existência de cada cidadão.

Sempre compreendi a cultura como algo muito maior do que aquilo que se apresenta nos palcos, nas galerias ou nas páginas de um livro. Ela não é um artigo de luxo, tampouco um privilégio reservado a quem dispõe de recursos para frequentar teatros, museus e grandes eventos. A cultura é um direito que nos identifica, nos aproxima de nossas origens e nos permite expressar quem somos. Está presente naquela canção que passa de pais para filhos, nas festas que atravessam gerações, nas histórias contadas de boca em boca, na literatura que inquieta, no cinema que descortina outras realidades, no artesanato que guarda a memória de um lugar, na dança, na culinária, nas manifestações religiosas e nos conhecimentos transmitidos pelos mais antigos.

O Brasil carrega dentro de si uma pluralidade extraordinária. Nossa identidade não nasceu de uma única história, mas de muitas trajetórias que se encontraram, se confrontaram e também resistiram ao longo do tempo. Povos indígenas, africanos, europeus, imigrantes e inúmeras comunidades deixaram marcas profundas na maneira como vivemos, pensamos, criamos e nos reconhecemos como nação. Essa herança não pode ser resumida a uma paisagem turística, a uma festa de calendário ou a uma cerimônia oficial. Ela está viva, em movimento, e precisa continuar encontrando espaço para existir.

Mas há uma diferença importante entre admirar uma riqueza e assumir a responsabilidade de preservá-la. Não basta reconhecer a diversidade cultural brasileira em discursos e homenagens. É necessário criar condições para que ela floresça, seja protegida, receba financiamento e esteja ao alcance de todos.

É justamente nesse ponto que a celebração também se transforma em questionamento. Que sentido existe em exaltar nossa criatividade e diversidade quando tantos artistas enfrentam dificuldades para sobreviver do próprio trabalho? Como falar em valorização cultural diante do fechamento de espaços dedicados à arte, de bibliotecas que não chegam a determinadas comunidades e de crianças e jovens que crescem sem oportunidades regulares de conhecer o teatro, a música, o cinema, a literatura e tantas outras manifestações artísticas?

Não consigo imaginar uma sociedade verdadeiramente desenvolvida que considere a cultura um gasto secundário, algo que pode ser retirado sempre que outras prioridades aparecem. Investir em cultura significa também fortalecer a educação, estimular a capacidade de pensar, ampliar a criatividade e formar cidadãos mais conscientes. A arte nos ensina a enxergar além do que está diante dos olhos. Ajuda a compreender diferenças, questionar desigualdades e reconhecer que o passado não deve ser esquecido, pois é também a partir dele que construímos o presente e projetamos o amanhã.

Há ainda uma dimensão que merece atenção: quem faz a cultura acontecer. Por trás de um livro publicado, de uma exposição, de um filme, de um espetáculo ou de uma apresentação musical existe muito mais do que o talento que chega ao público. Há artistas, técnicos, produtores, pesquisadores, mestres das tradições e inúmeros trabalhadores envolvidos em uma atividade que movimenta uma cadeia econômica e simbólica de grande importância. Aplausos são bem-vindos, mas não pagam o trabalho de quem cria. Valorizar a cultura também significa respeitar seus profissionais, oferecer condições dignas de produção e reconhecer que a arte precisa de sustentação para continuar existindo.

Outro aspecto que considero indispensável é fazer com que o acesso à cultura deixe de ser determinado pelo endereço ou pela condição social de cada pessoa. Ela precisa estar presente nas escolas, nas periferias, nos bairros, nas praças, nos centros comunitários e nas localidades distantes dos grandes centros culturais. Não podemos esperar que todos tenham condições de se deslocar até onde a cultura está concentrada. É preciso inverter essa lógica: levar a arte às pessoas, aproximá-la de suas realidades e garantir que essa presença seja constante, não uma visita ocasional.

Também não podemos cometer o equívoco de reconhecer como cultura somente aquilo que recebe destaque na imprensa, ocupa grandes palcos ou conquista prestígio institucional. Existe uma riqueza imensa nas pequenas cidades, nas iniciativas independentes, nos grupos comunitários, nas rodas de conversa, nas celebrações tradicionais e nos coletivos que seguem trabalhando com poucos recursos. São pessoas que, muitas vezes sem visibilidade ou reconhecimento, mantêm vivas as tradições, preservam lembranças e encontram na arte uma maneira de reunir a comunidade e transmitir conhecimentos.

Por isso, acredito que o 5 de novembro precisa representar mais do que uma homenagem simbólica. Deve nos lembrar da responsabilidade de construir políticas culturais permanentes, assegurar financiamento, proteger o patrimônio histórico, preservar as manifestações populares, incentivar a formação artística e defender a liberdade de expressão. É preciso oferecer às novas gerações oportunidades para descobrir seus talentos, experimentar linguagens e contar suas próprias histórias.

Um país que deixa de conhecer e respeitar suas manifestações culturais corre o risco de perder referências essenciais de sua trajetória. Quando um povo é afastado da cultura, não lhe tiram apenas a possibilidade de assistir a um espetáculo, ler um livro ou apreciar uma obra de arte. Limitam-se também suas oportunidades de pensar, questionar, participar, reconhecer suas origens e exercer a própria liberdade.

Celebrar a cultura é reconhecer uma das mais belas capacidades humanas: criar, compartilhar experiências, preservar conhecimentos e transformar realidades. Nenhum governo, segmento social ou instituição pode reivindicar para si a propriedade desse patrimônio. A cultura pertence à coletividade, nasce da participação das pessoas e se fortalece quando todos encontram espaço para contribuir com ela.

Neste Dia Nacional da Cultura, minha reflexão é que precisamos aprender a celebrar sem esquecer de cuidar. Porque não adianta reverenciar nossas tradições enquanto permitimos que desapareçam, elogiar nossos artistas sem reconhecer seu trabalho ou falar em diversidade sem assegurar condições para que todas as vozes sejam ouvidas.

Quero acreditar em um Brasil que não se lembre da cultura apenas quando chega o dia de homenageá-la. Um Brasil que a reconheça nas pequenas manifestações e nas grandes criações, que respeite seus artistas, proteja suas memórias e ofereça às crianças e aos jovens a oportunidade de descobrir o mundo por meio da arte. Afinal, a cultura não é apenas aquilo que herdamos de quem veio antes de nós. É também aquilo que escolhemos preservar, compartilhar e deixar como legado para quem ainda virá.

 

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Escritor – Compositor

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